Assisti ontem ao filme Fargo. Ele é um filme interessante justamente por parecer simples enquanto fala de coisas muito profundas. Dirigido pelos irmãos Coen (1996), ele mistura humor negro, crime e uma visão quase metafísica do acaso, do mal banal e das consequências morais das escolhas.
O mal banal e o acaso
Em Fargo, nada começa com grandes vilões ou planos geniais. O crime nasce da mediocridade, da ganância pequena, da incapacidade de lidar com frustração. Jerry Lundegaard não é um gênio do mal — é um homem comum, inseguro, infantilizado, que tenta “dar um jeito” e cria uma cadeia de eventos catastróficos. O filme sugere algo inquietante: o mal muitas vezes não é grandioso, é patético.
O acaso tem um papel central. Pequenas decisões erradas, encontros fortuitos e erros banais se acumulam até um desfecho trágico. Não há destino heroico, apenas consequências.
Violência sem glamour
A violência em Fargo é seca, absurda e desconfortável. Não há estetização. Quando ela acontece, parece sempre deslocada, quase grotesca, reforçando a ideia de que a brutalidade não tem nobreza nem sentido profundo — ela simplesmente acontece. Isso diz muito sobre a visão dos Coen: a violência não redime, não ensina, não engrandece.
Marge Gunderson: ética silenciosa
No centro do caos está Marge Gunderson, a policial grávida, educada, tranquila. Ela não é cínica, não é amarga, não é violenta. E justamente por isso ela funciona como o eixo moral do filme. Marge representa a decência simples, cotidiana, quase invisível — aquela que não faz discursos, mas age.
Seu monólogo final é um dos momentos mais bonitos do cinema dos Coen: uma reflexão suave sobre ganância, escolha e contentamento. Em meio a tanta destruição por dinheiro, ela lembra que a vida é feita de coisas pequenas, suficientes.
Humor como forma de estranhamento
O humor de Fargo não alivia — ele aprofundha o desconforto. O sotaque, os diálogos repetitivos, a cordialidade exagerada contrastam com atos violentos, criando uma sensação de estranhamento constante. Rimos, mas logo percebemos que o riso vem acompanhado de culpa.
Uma leitura psicológica
Psicologicamente, Fargo é um estudo sobre:
- Imaturidade emocional
- Incapacidade de tolerar frustração
- Ganância como tentativa de reparar um vazio
- Responsabilidade individual diante do acaso
Jerry não é um psicopata. Ele é alguém que não sustenta a própria angústia e tenta terceirizar soluções — e isso o destrói.
Em resumo
Fargo fala sobre o quanto a vida pode sair dos trilhos quando abrimos mão da responsabilidade ética, e o faz sem moralismo, sem heroísmo e sem redenção fácil. É um filme sobre o mal comum, a bondade discreta e o absurdo da existência — contado com neve, silêncio e um sorriso educado.
É um daqueles filmes que parecem pequenos, mas continuam ecoando muito tempo depois de terminar.