Reflexões de consultório: A vida é um milagre

A vida é um milagre — mesmo quando a gente não sabe muito bem explicar por quê.

Escrevo isso ao final de um dia de atendimentos, depois da última consulta. Talvez seja justamente nesses momentos, quando o silêncio volta, que algumas verdades ficam mais claras. Estamos aqui. Pessoas, histórias, dores, desejos. Um planeta perdido no meio de um universo imenso e frio. E, ainda assim, seguimos nos encontrando.

Somos, ao mesmo tempo, profundamente solitários e absolutamente dependentes uns dos outros. Precisamos de gente. De escuta. De presença. Mesmo assim, somos contraditórios, às vezes destrutivos, ferimos quem amamos e a nós mesmos. Talvez por isso ouvir alguém falar de si — de seus medos, pensamentos, inseguranças, “maluquices”, dores da alma — seja algo tão raro e tão bonito. É quase um milagre.

Freud dizia que somos seres movidos pelo desejo, pela pulsão de vida, pelo sexo no sentido mais amplo da palavra. Lacan nos via como seres falantes, perdidos no universo, tentando construir sentido através da linguagem. Gosto dessas ideias porque elas nos lembram de algo essencial: falar é existir. Ser ouvido é ser reconhecido.

Na clínica, tudo aparece. A vida em sua forma mais crua e mais verdadeira. O nascimento de um filho, a aprovação em um vestibular, a angústia antes de uma prova, o amor que chega de madrugada e dá vontade de ficar para sempre. As dores físicas e as dores invisíveis. A hipomania, a depressão, a ansiedade, o pensamento de morte. A arte, a beleza, a espiritualidade. A família, os amigos. O vazio e o excesso. Tudo isso é vida.

Viver é uma experiência profundamente peculiar. E isso não é um defeito — é a sua maior beleza. A vida não vem com manual, não oferece respostas prontas e muitas vezes não faz sentido algum. Talvez por isso valha tanto a pena. Temos poucas décadas aqui. Pouco tempo para descobrir quem somos, o que nos move, o que nos dá vontade de continuar.

Acredito que parte do cuidado em saúde mental passa por isso: ajudar cada pessoa a se conhecer melhor, a entender seus desejos, seus valores, seus projetos de vida. Encontrar o que dá sentido, o que dá tesão de viver. E, a partir daí, viver de forma ética, honesta e amorosa — consigo e com os outros.

O amor, afinal, atravessa tudo. Amar alguém, desejar, compartilhar uma madrugada, construir intimidade. Amar a própria vida, apesar das dores. Amar o caminho, mesmo sem garantia de chegada.

Poder testemunhar tudo isso no meu trabalho é um privilégio imenso. A clínica é, para mim, um espaço de encontro humano profundo. Um lugar onde o sofrimento encontra acolhimento, onde a fala encontra escuta, e onde, mesmo em meio à dor, a vida insiste em acontecer.

Talvez seja isso que me move todos os dias: estar com o outro nesse mistério que é existir. Porque, no fim das contas, estamos juntos — e isso faz toda a diferença.

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