Filme: Drive My Car (2021)

Drive My Car (2021), dirigido por Ryūsuke Hamaguchi, é um filme profundamente silencioso e emocional, que fala sobre luto, escuta e a dificuldade humana de dizer o que realmente importa. É um cinema do tempo lento, das pausas, dos gestos contidos — onde o não dito pesa tanto quanto o que é falado. São quase 3 horas de filme num ritmo bem lento – pelo menos eu achei.

Luto e ausência

No centro da narrativa está Yūsuke Kafuku, um ator e diretor de teatro que perde a esposa de forma súbita. O luto em Drive My Car não é explosivo; ele é contido, repetitivo e solitário. A dor aparece nos rituais, nas rotinas, nos silêncios. O filme mostra como algumas perdas não se resolvem — apenas aprendemos a conviver com elas.

A palavra e o silêncio

O texto de Tio Vânia, de Tchekhov, atravessa o filme como um espelho da vida dos personagens. As falas são repetidas mecanicamente nos ensaios, quase sem emoção, como se precisassem primeiro passar pelo corpo antes de alcançar o afeto. O cinema de Hamaguchi sugere que falar não é o mesmo que comunicar — e que, às vezes, é preciso atravessar longos silêncios para que algo verdadeiro possa emergir.

O carro como espaço psíquico

O carro vermelho não é apenas um meio de transporte: ele é um espaço de elaboração psíquica. É ali, em movimento, que Kafuku escuta gravações da esposa morta, revive memórias e, aos poucos, permite a entrada de Misaki, a motorista, cuja própria história é marcada por culpa e trauma. O carro se torna um lugar de escuta mútua, onde duas dores diferentes aprendem a coexistir.

Escuta como forma de cuidado

Misaki não invade, não interpreta, não corrige. Ela escuta. E o filme mostra como ser escutado sem julgamento pode ser profundamente transformador. A relação entre os dois não é romântica; é ética. É sobre presença, respeito e tempo.

Um filme sobre seguir em frente sem esquecer

Drive My Car não fala de superação no sentido clássico. Fala de seguir vivendo apesar da dor, carregando as ausências, aceitando as imperfeições e reconhecendo que algumas perguntas não terão resposta.

É um filme sobre maturidade emocional, sobre a coragem de permanecer vulnerável e sobre como, às vezes, continuar dirigindo já é um gesto de esperança.

Achei-o muito sensível e profundo, um belo filme!

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